Sou o fantasma, o mistério, o suspense momentâneo. Mantenho-me no escuro, blasfemando contra tudo e todos. Ando a passos lentos, reconhecendo cada pisada, calculando cada gesto, protegendo-me de qualquer bem que possa me atingir. Estou sempre sonolento, delirando sob as melhores estações. O volume da canção mais fúnebre do meu repertório me ensurdece, este baile me fascina. Meu peito traído, perfurado, jorra a falsidade que nele contém, meus amigos riem, não conseguem me auxiliar. Outrora, estava a balançar minha filha, sob o doce cheiro dos verdes pastos, aos sorrisos largos e brancos, expressões inigualáveis. Cá estou, amargando todo este sentimento que me atiraram, vivendo uma perfeita desarmonia, as notas não se adequam ao ritmo. Tudo que tenho é o nada, é o desespero, o medo, a sensibilidade de enfrentar qualquer feixe de luz. A depressão que entreguei minhas carnes, contagiam, as flores exaltam-se, fogem. Me faço caminhar sobre a malícia, alimento-me de puro desprezo, bebo o vinho do meu maior inimigo. Que me seja permitido o poder, este que aqui me atirou, esteja apto a me resgatar. Reside no amâgo do meu organismo, a incessante, a perfeita, a consistente arte da decepção.
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